Estudo de Caso
Parte A
Há alguns anos tive a oportunidade de atender uma aluna com “Transtorno Bipolar”.
Ela tinha 13 anos. Era magra. Seus cabelos eram pretos e curtos. Cortados de qualquer forma e em casa. Tinha marcas de queimadura pelo corpo, as quais foram causadas em um incêndio nas cobertas que foi provocado por uma vela que usavam para iluminar a casa a noite. Chamava-se Amanda. Era de família muito pobre. Era uma menina de rua. O pai era e ainda é, álcoolatra. A mãe era e ainda é, usuária de drogas. O irmão mais velho era presidiário, também era usuário de drogas e já havia tentado estrupa-la.
Sua residencia era um casebre pequeno e muito sujo. Não tinha e não tem luz elétrica e nem água encanada. Banheiro? Segundo ela faziam as necessidades esfincterianas em baldes ou jornais e depois as despejavam em um mato nos fundos da casa. O que constatei nas visitas que fiz em sua moradia. O pátio não era pequeno, nele haviam dois cachorros sarnentos e magros da raça Pitbul. Suas costelas eram visíveis. Haviam também algumas galinhas e segundo a menina, não eram sacrificadas, pois produziam ovos para a família.
Sua família era composta pelo pai, a mãe e três irmãos. Ela e os irmãos tiveram vários registros de passagem pela Casa Abrigo Municipal de onde fugiram todas as vezes. A família vivia de donativos ou ganhos provenientes da venda de “alhos”, a qual era feita e ainda é, por ela e pelos irmãos caçulas nos semáforos na Avenida Flores da Cunha em ferente ao Hipermercado BIG na cidade de Cachoeirinha, ou viviam também de esmolas que pediam aos transeuntes.
Por não seguir o tratamento devidamente suas crises eram constantes e muito fortes. Os remédios eram conseguidos no Posto de Saúde, porém ela jogava fora quando a mãe lhe dava para tomar. Era agressiva e arredia com todos e o que tinha ao seu alcance jogava em quem passava ou em quem não simpatizava.
Foi encaminhada e matriculada pelo Conselho Tutelar na escola onde desempenho minhas funções profissionais. Porém, devido as suas atitudes, infelizmente, não era possível o seu atendimento na turma. Era muito agressiva. Investia contra os colegas.
A disparidade da idade dela e dos colegas era muito grande. Os colegas com seis anos de idade, pequeninos. Ela com 13 anos, já com corpo de adolescente.
Suas vestimentas eram sujas e ela tinha um mau cheiro devido a precariedade de higiene. Em sua cabeça, ou melhor em seus cabelos havia uma comunidade de piolhos bastante extensa residindo. Eram tantos que caiam em suas vestimentas. Ficou menstruada pela primeira vez na escola. Tomei conhecimento disto por ela certa vez pedir-me jornal. O que questionei o motivo. Ela respondeu-me que estava sangrando, “que eram aquelas coisas de mulher” e por isso precisava do jornal. Disse-me que sua mãe usava jornais como absorvente. Fiz os devidos esclarecimentos e providenciei absorventes para que ela levasse para casa também e combinei com ela que daria-lhe todo o mês os absorventes que necessitasse.
A aluna não conhecia as cores. Não sabia recortar ou manusear o lápis ou a tesoura. Suas representações gráficas eram garatujas. Não tinha noção de quantidade, mas contava oralmente. Era um verdadeiro “caos”.
Como havia simpatizado comigo, em uma de suas crises, a direção da escola solicitou-me que tentasse acalmá-la e a a partir deste episódio passei a atende-la.
Na referida crise, a aluna estava com uma tesoura e uma pequena barra de ferro a qual investia contra os colegas e a professora. As crianças choravam e gritavam apavoradas. A professora tremia. Estava em estado de choque e não tinha ação. Entrei na sala e chamei pelo seu nome, como se o que estava acontecendo não me afligisse. Ela virou-se e sorriu. Solicitei que saíssemos da sala de aula e fossemos para o outro ambiente onde pudéssemos conversar e realizar algumas tarefas. Ela aceitou e então, fomos para uma sala onde ficamos sós. Peguei algumas revistas e convidei-a para rasgar algumas folhas de revistas para tentar acalmá-la. Disse-lhe que antes teríamos que folhear as revistas e escolher aquelas que considerássemos mais bonitas.
Ela estava impaciente, dizia que precisava matar alguém, podia ser qualquer um. Questionei-a se cogitava agir ou se pretendia faze-lo comigo. Ela respondeu-me que não, pois eu era sua amiga e gostava dela e que se eu quisesse poderia até encostar minha mão na sua. Que sabia que eu queria ensinar-lhe “as coisas”.
Conforme folheava a revista foi acalmando-se, mas bastava ouvir a voz de outras pessoas ficava inquieta. Enquanto folheávamos as revistas eu tecia questionamentos à ela como: Se tinha irmãos? O que faziam? Onde estudavam? Quantos eram? Se a mãe trabalhava e em que? O pai o que fazia? Foi quando ela relatou-me que o irmão era presidiário. Que ele fumava maconha. Disse que a mãe era “sem vergonha”. Contava tudo sem restrições. Seu vocabulário era chulo e de baixo calão. Relatava o que a mãe fazia com o vizinho quando o pai saía. Que o vizinho pagava a mãe. Achava que o pai sabia, mas como era para sustentar a família não se importava. As primeiras folhas da revista ela rasgou em pedaços grandes. Assim, rasgou uma revista inteira e após comer a merenda escolar disse que tinha que ir embora.
A todo o momento ela questionava o horário da merenda e a hora de ir embora. Queria logo ir para casa. Dizia que estava com fome. Que queria comer. Então, eu solicitei que alguém alcançasse algo para ela comer.
Comeu com uma voracidade inigualável, como se fosse um animal. A colher não fez questão de pegar. Comia com as mãos. Cobrei sua atitude e sugeri que procurasse se acalmar e comesse devagar, pois não eram atitudes de uma menina educada. Ela resmungava e continuava agindo da mesma forma. Dizia que era muita fome. Ficou agressiva gritando palavrões. Espalhou o papel rasgado pela sala. Atirou as cascas das banana que havia comido pelo chão. Derrubou cadeiras. Subiu nas classes e caminhou por sobre as mesmas. Ao sair pelo corredor pegou um vaso enorme com folhagens e atirou-o no andar de baixo, no pátio da escola quase atingindo uma professora. Arrancou da porta do corredor filetes de alumínio e investia contra quem tentasse chegar perto dela. Foi necessário acionar a promotoria pública e a Patrulha Escolar e mesmo assim não se conteve e destratou a todos.
Agiu desta maneira por muitos dias, mas aos poucos foi se modelando e comendo com mais tranquilidade.
Episódios iguais a este se repetiram por dias e muitos meses. Entretanto sempre consegui desenvolver um diálogo com ela ou algumas atividades.
Realizei atividades com blocos lógicos desenvolvendo noções de espaço, quantidade, forma e cores.
A rasgadura de papel era feita quase que diariamente. Fazia no máximo uma folha, porém eu exigia que a página fosse rasgada no mínimo em 15 ou 20 pedaços. Após, solicitava que colasse os pedaços em uma folha de ofício tentando reconstruir a gravura. O recorte e a colagem era realizado com folhas mimeografadas com imagens ou com as letras do seu nome. A atividade de modelagem com argila ou massa de modelar não podia ser realizada por mais de 15 minutos, pois ela atirava nas paredes as bolinhas que enrolava. A pintura com tempera, aquarela e cola colorida também não podia ser extensa, caso contrário ela pintava as paredes da sala. O jogo quebra-cabeça ( dificilmente ela conseguia montar por completo, exceto os que envolviam poucas peças, isto é, 12 ou menos ). Com o Dominó de gravuras era o mesmo. No jogo do Mico, não aceitava perder. O “Pula corda”, não podia ultrapassar 10 minutos, pois ela já pensava em investir contra mim ou quem estivesse por perto.
Contava-lhe histórias e após solicitava que respondesse oralmente ou por desenhos a mensagem ouvida.
Nunca conseguimos que ela cursasse os dois blocos de estudo. O máximo que conseguíamos que ficasse na Escola era uma hora e meia. A mãe, os primos, ou os irmãos a buscavam.
Infelizmente ela não era assídua, o que prejudicou muito o seu desenvolvimento. Muitas vezes fui até sua casa para cobrar a sua ausência nas aulas. E convence-la a retornar para a Escola. Consegui fazer que assimilasse as cores, que as reconhecesse e as identificasse. Que escrevesse, reconhecesse e identificasse a letra “A” como a letra inicial de seu nome como também o meu nome Amélia e que para escrever o seu nome era necessário que traçasse ela por três vezes. Assim, quando eu solicitava que escrevesse seu nome ou assinasse as folhas das atividades, ela fazia: “AAA” e pronunciava seu nome pausadamente enquanto o tentava escrever: A....MAN....DA e tentava escrever o meu e registrava “AA”, reconhecia e identificava que a grafia do meu nome tinha dois "A".
As representações gráficas como: seres humanos eram feitas com um traço vertical e no topo deste uma bola com pingos desordenados. Os animais, eram representados com traços horizontais e em uma das extremidades uma bola para representar a cabeça. Tinham alguns riscos verticais para baixo representando os membros. A representação de uma casa era uma grande bola com três bolas em seu centro representando a porta e as janelas. A árvore era um traço vertical com uma bola oval na extremidade superior.
Infelizmente ela não era assídua.
Muitas vezes fui procura-la, ou a encontrei no ônibus no percurso Gravataí - Cachoeirinha. Questionava a sua falta na escola e dizia-lhe que estava com saudade.
Quando completou 15 anos fizemos um bolo e comemoramos o seu aniversário na escola. A equipe diretiva reuniu-se e demos-lhe um kit de roupas, de higiene pessoal e bijouterias. Ela ficou muito feliz.
Passou a comparecer uma vez por semana na escola e o máximo que ficava era uma hora e quarenta minutos, o que aconteceu por quase três anos.
Depois aos 16 anos afastou-se por completo. Tentamos que retornasse para a Escola, mas não tivemos êxito.
Em 2008 tivemos informações que havia se "casado" e que já tinha um filho e que quem cuida da criança é sua mãe.
No próximo mês, isto é, no dia 15 de maio ela deve completar 20 anos.
Comments (1)
fernanda.pead@... said
at 1:34 am on Jul 1, 2009
Olá, Luiza!
Vejo que integrastes em um único relato informações sobre a história pessoal e escolar da aluna. Senti falta de teres mencionado sobre quando ela foi diagnosticada. Podes encaminhar seu estudo de caso para as conclusões.
Um abraço,
Fernanda
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